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WhatsApp Image 2021 04 02 at 08.45.55PROJETO DE RECONSTRUÇÃO do Museu Nacional: patrimônio da universidade, da Ciência e da Cultura do Brasil - IMAGEM: DIVULGAÇÃOOlav Antonio Schrader, monarquista aliado do governo Bolsonaro, seria o idealizador do projeto de tornar o Museu Nacional uma instituição desvinculada da UFRJ e de exclusiva memória da família imperial. Ele comanda, desde julho do ano passado, a superintendência do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Rio de Janeiro. O plano de transformação da instituição veio à tona na última semana, pela imprensa. O Jornal da AdUFRJ conseguiu mais detalhes sobre o caso.
Ainda em 2018, antes do incêndio que devastou o palácio, Schrader esteve no Museu para expor seu projeto. Ao insistir na ideia de tornar o espaço exclusivo de homenagens ao período imperial, ele teria ouvido que o Museu Nacional jamais deixaria de ser uma instituição de ensino, pesquisa e extensão e o mais importante museu de história natural do país.
Pouco mais de um ano depois do início do governo Bolsonaro, o magoado Schrader foi içado pela ala ideológica ao cargo no Iphan e passou a ser interlocutor direto da UFRJ em tudo o que se refere aos prédios tombados da universidade, inclusive o Museu Nacional. A escolha, à época, gerou reação de setores de arquitetura e de defesa do patrimônio histórico, já que o superintendente não é formado na área. Ele é graduado em relações internacionais, com experiência na administração de imóveis no bairro de São Cristóvão. Suas principais “qualificações”, para o governo, são o fato de ser monarquista e seguidor de Olavo de Carvalho.
Para o diretor do Museu Nacional, professor Alexander Kellner, a proposta monarquista não é viável. “Só quem pode tirar o palácio da UFRJ é a própria UFRJ. O Executivo não tem poder para fazer isso na canetada. Então, a ideia é natimorta”, disse. “Mas ela causa apreensão, sobretudo porque, segundo as matérias, o Iphan do Rio de Janeiro encampou. E aí é que nós ficamos preocupados, porque eles são nossos fiscais”, completou.
O Ministério da Educação também estaria envolvido nessa articulação. A pasta chegou a pedir esclarecimentos à universidade, este ano, depois de um boato chegar à Esplanada. A ala ideológica teria ventilado que a UFRJ construiria um shopping center, no prédio histórico da Quinta, em homenagem à vereadora Marielle Franco. O objetivo da fake news seria enfraquecer politicamente o projeto de reconstrução do Museu Nacional e abrir espaço para uma investida mais agressiva dos monarquistas.
Procurado, o MEC afirmou que “desconhece qualquer tratativa no intuito de transformar o Museu Nacional da UFRJ em um palácio”. Sobre a possibilidade de a universidade perder o patrimônio, o ministério reiterou “o respeito à autonomia didática, científica e administrativa prevista na Constituição Federal”. A pasta não respondeu se tomou conhecimento da suposta criação do shopping.
O professor Kellner se declarou surpreso com toda a história. “Apresentamos por várias vezes o projeto que temos para o Museu Nacional e nunca recebemos nenhuma informação deste tipo”, disse. Sobre a possibilidade de o MEC ser um dos possíveis articuladores do projeto, ele foi categórico: “Não acredito que o ministério esteja envolvido nisso”.
Um dos aspectos curiosos de todo esse enredo é justamente a negação dos monarquistas da própria história. “A instituição sempre foi um museu de história natural. Dom Pedro II investiu muito nas peças coletadas, inclusive pela própria imperatriz Leopoldina. Tinham artefatos do Egito, como múmias tanto de Dom Pedro I quanto de Dom Pedro II”, lembrou o diretor.
Kellner também se ressente da quebra de relações entre o Museu e o Iphan. “Eu tenho total respeito pelo Iphan. Assim que iniciei minha gestão no Museu, foi um dos primeiros órgãos que eu procurei. Sempre tivemos uma relação de parceria. O problema é que, com essas mudanças governamentais, mudou-se muito a estrutura do órgão”, avaliou. “O que queremos é a parceria que tivemos até meados de 2020”, concluiu.

Reação imediata
Assim que a trama foi desvelada, a comunidade científica reagiu. A primeira a se posicionar foi a reitoria da UFRJ. Em nota, a administração central afirmou que repudia “quaisquer movimentos que tentem alterar o papel e a configuração do mais antigo instituto científico do Brasil”. A nota prossegue: “Qualquer deliberação patrimonial demandaria aprovação colegiada em diversas instâncias superiores da Universidade, estruturas que, certamente, rejeitariam a proposta obscura”. A reitoria ainda chama a intenção de “ato descabido” e “tirânico”.
No dia seguinte, foi a vez de as sociedades científicas se pronunciarem. O Fórum de Entidades em Defesa do Patrimônio Cultural Brasileiro publicou uma nota em que reafirma o caráter científico do Museu e apoia sua reconstrução. O documento é assinado por 25 associações e grupos, dentre os quais a Sociedade de Arqueologia Brasileira, o Instituto de Arquitetos do Brasil e a Associação Brasileira de Antropologia. Os presidentes das academias brasileiras de Ciências e de Letras, Luiz Davidovich e Marco Lucchesi, enviaram carta ao ministro Milton Ribeiro, da Educação. O texto chama de “articulações descabidas” as ações contra o Museu Nacional.
Pró-reitora de Extensão, a professora Ivana Bentes se manifestou em suas redes sociais. “Transformar o Museu Nacional em um ‘Palácio Imperial’ destituído de sua função científica e de formação é um delírio da ala bolsonarista mais obscurantista e das viúvas da monarquia”, escreveu. “O Museu Nacional é um patrimônio da ciência e da memória. Não é um espólio a ser disputado como troféu de fascistoides e monarquistas”.
O Iphan não retornou as tentativas de contato da AdUFRJ. A Secretaria Especial de Cultura do Ministério do Turismo, também citada pela imprensa, não nos respondeu até o fechamento desta edição.

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