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WhatsApp Image 2021 02 11 at 21.26.31MUSEU teve obra embargada“A primeira pergunta foi meu nome, a segunda foi a minha relação com o museu e a terceira, se eu conhecia o Lula”. Foi assim, na alvorada do dia 13 de dezembro de 2016, que o historiador e professor Paulo Fontes acordou com a visita da Polícia Federal em seu apartamento, no Rio. Eram seis da manhã e ele estava com a mulher e os dois filhos pequenos. Paulo foi conduzido coercitivamente no âmbito da Operação Hefasta, que apurava supostas irregularidades no projeto do Museu do Trabalho e dos Trabalhadores de São Bernardo do Campo (MTT), onde ele atuava como coordenador de conteúdo. Depois de mais de quatro anos de idas e vindas a São Paulo, a vitória chegou. No começo deste ano, Paulo e outros acusados pelo Ministério Público, como o ex-prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho (PT), foram absolvidos. A sentença era esperada desde que o próprio MP, no início de 2020, reconheceu não haver provas contra os acusados.
Professor do Instituto de História da UFRJ, onde coordena o Laboratório de Estudos de História dos Mundos do Trabalho (LEHMT/UFRJ), Paulo é também diretor, desde novembro de 2019, da Universidade da Cidadania, órgão ligado ao Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, responsável por atividades formativas, de pesquisa e extensão entre a universidade e os movimentos sociais.
Até a vitória chegar, Paulo viveu um longo período de indignação e de luta para provar que era acusado por um crime que nunca cometeu. “Procurei advogados especializados de São Paulo, que me orientaram a procurar o Ministério Público. Conversei três vezes com a procuradora, entre 2016 e 2018, abri meu sigilo bancário, levei documentos, na expectativa de que, mostrando a minha situação, ela reconheceria que o MP havia cometido um equívoco e que eu não seria considerado réu. Mas ela me denunciou”, conta o professor.
WhatsApp Image 2021 02 11 at 21.26.31 1Professor Paulo FontesPara Paulo, a investigação queria chegar ao ex-presidente Lula. “Existia um contexto político de dizer que o museu era do Lula, que o Luiz Marinho havia construído para ele. Mas eles não tinham nenhuma prova disso. A denúncia desde o princípio era frágil, cheia de inverdades”, afirma.
Depois das recentes revelações sobre as irregularidades da Operação Lava Jato, Paulo acredita que o contexto pesou para a sentença favorável. “Está cada vez mais claro que barbaridades, ilegalidades e crimes foram cometidos em vários desses casos. Não se trata de passar pano na corrupção, mas, em nome de limpar a corrupção, eles criaram uma montanha de mentiras”, diz. “No caso operação de que fui alvo, tinha o contexto de punir intelectuais e críticos em nome de varrer a corrupção”, afirma.
O professor é grato por ter, finalmente, o nome limpo na Justiça. “Num país como o nosso, em que a Justiça não costuma acontecer, temos que comemorar. Não tenho dúvida de que o caso só prosperou por causa das circunstâncias políticas daquele período, assim como o resultado final também tem a ver com a revelação das mentiras da Lava Jato, que operou na mesma lógica de coerção da Hefasta”, reflete Paulo.
Lucas Pedretti, historiador e membro do Núcleo de Memória e Direitos Humanos do Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ (CBAE/UFRJ), acredita que o que tem acontecido de 2016 até hoje tem a ver com uma expressão renovada do que já foi visto em outros momentos, quando em nome de certos valores como ordem, moral, combate à corrupção e subversão, é possível atropelar a lei, o processo legal e os valores civilizatórios mínimos. “A ditadura militar nunca reconheceu a existência de presos políticos. Eles diziam que os subversivos eram corruptos ou terroristas. E o fato de a gente não ter lidado com esse período do ponto de vista da memória, da reparação e Justiça para quem foi violado, a gente tem mais dificuldade em evitar a repetição desse movimento”, explica.
Para Lucas, é necessário fazer uma reparação material, emocional, mas também coletiva. “Temos que buscar a construção de mecanismos para que isso não aconteça com outras pessoas, porque o nosso sistema de Justiça e o das forças de segurança não operam numa lógica de mudança, o que leva a gente a uma espécie de eterno retorno”, diz Lucas.
Paulo Fontes está disposto a buscar reparação do Estado brasileiro. “Uma reparação para mim seria o museu acontecer, é fundamental para o país ter um museu como esse”, afirma. “Trabalhei minha vida inteira nesse projeto. Ele diz respeito a um avanço político do país, que o museu iria expressar muito bem. Mas aí chamaram de museu do Lula e se transformou num negócio kafkaniano, em que qualquer coisa que você faça é realmente a prova daquilo que você está sendo acusado”, conta.
As obras do museu foram embargadas, há apenas um esqueleto construído. “É lamentável que sempre no avanço de regimes conservadores eles ataquem a memória”, reflete Maria Paula Araújo, do Instituto de História da UFRJ. Para ela, um dos papéis da memória na sociedade é valorizar e trazer à tona a história dos segmentos sociais. “É principalmente nesse sentido que atuava o Paulo Fontes e outros pesquisadores nesse projeto de memórias do mundo do trabalho, que tinha a ver com o museu também. Nem é, nesse caso, um museu fundamentalmente político como, por exemplo, o Museu da Memória e dos Direitos Humanos do Chile, ou o Memorial da Resistência, em São Paulo”, explica a professora. “Era uma iniciativa muito importante para se estudar o processo político e econômico do país”, conclui.

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