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WhatsApp Image 2020 10 16 at 14.41.46COLÉGIO DE APLICAÇÃO forma novos professores há 68 anosA universidade ensina, pesquisa, faz extensão. Só na graduação, atende a 50 mil estudantes. Cinco mil deles se formam todos os anos nos 176 cursos da UFRJ. Este grande corpo discente é a força motriz para 4.198 docentes. Parte deste contingente tem uma tarefa ainda mais especial: transformar 9,5 mil alunos em novos professores das mais diferentes áreas de atuação. Da Química à Literatura. Da Educação Física à Matemática.
A tarefa de ensinar a ensinar não é simples e envolve diferentes estratégias pedagógicas. Embora o ensino de graduação tenha sofrido uma pausa forçada na pandemia, a formação de professores também acontece por meio do estágio supervisionado no Colégio de Aplicação, atividade que não parou. “Por um lado, o estágio remoto é muito prejudicial, pela perda das relações presenciais na sala de aula. Mas, por outro lado, a gente avaliou ser muito importante para o estudante que está se formando como professor vivenciar uma escola em transformação”, explica Anna Thereza de Menezes, diretora adjunta de licenciatura, pesquisa e extensão do CAp-UFRJ.
No ambiente escolar, os futuros professores podem participar da elaboração de materiais pedagógicos, dos encontros síncronos com as turmas da educação básica e, em alguns casos, até mesmo dos processos de avaliação. Anualmente, o CAp costuma receber em média 500 licenciandos. Um número que caiu neste ano letivo especial. “Durante esse momento de pandemia, 401 estudantes se cadastraram para o estágio no CAp. Mas nós reforçamos aos que ainda não fizeram estágio, e que não vão se formar nesse momento, que priorizem fazer o estágio presencial”, pontua Anna. “O estudante que quer estagiar com a alfabetização, por exemplo, é melhor aguardar para poder vivenciar isso no espaço da sala de aula”, aconselha.
O colégio não está sozinho na tarefa. Oficializado na Estrutura Média da UFRJ no final de 2018, o Complexo de Formação de Professores (CFP) é uma política institucional que organiza a formação inicial e continuada de professores da Educação Básica. “O CFP foi um primeiro passo no sentido de se haver uma ‘casa comum’ para olhar a formação de professores de uma forma mais cuidadosa”, explica Anna.
O Complexo reúne não só os docentes da UFRJ, mas também professores das redes municipal e estadual na tarefa de pensar e desenvolver estratégias de formação continuada. “O Complexo não tem um projeto pronto único. É quase um trabalho artesanal, em que a gente vai às escolas e ouve os professores e o diretor para saber o que cada uma das nossas 48 parceiras precisa”, descreve a ex-diretora da Faculdade de Educação da UFRJ, Carmen Teresa Gabriel. Atual coordenadora do Comitê Permanente do Complexo, a professora ressalta o objetivo da iniciativa de valorizar o docente da educação básica, para a formação de profissionais com qualidade e pensamento crítico.
A responsabilidade da universidade, portanto, não se restringe ao ensino superior. “A UFRJ forma professores. O potencial de transformar a educação básica é imenso”, defende o presidente da Academia Brasileira de Ciências, Luiz Davidovich. “É fundamental que os novos docentes sejam ensinados a conduzir seus alunos para uma educação emancipadora, que os leve a perguntar. Essa responsabilidade é nossa, enquanto universidade”.

DIFICULDADES
Mesmo dentro da universidade, a formação de professores ainda sofre com a falta de prestígio. “Em muitos cursos, o estágio é feito apenas na conclusão da graduação, quando muitas vezes essa orientação prática precisaria de um desenvolvimento maior”, exemplifica Anna.
Foi o que aconteceu com ela. Formada na Escola de Belas Artes da UFRJ, Anna estagiou no CAp, onde hoje é professora. “Na minha formação, só fui ter contato com essa concretização de que seria professora quando cheguei ao CAp”, conta.
A docente destaca também a falta de políticas de assistência estudantil para os estagiários de licenciaturas. “Não conseguimos até hoje ter uma linha de ônibus que ligue o CAp-UFRJ da Lagoa ao Fundão ou à Praia Vermelha. O metrô também não chega tão perto. O bairro é extremamente caro”, reclama. “Nós não temos um bandejão. Se o licenciando não levar a própria quentinha, precisará pagar caro por alguma refeição nas redondezas”, critica.
A formação dos novos professores esbarra também num outro desafio a ser superado: a desigualdade social. O estágio no CAp não é remunerado, algo que afeta principalmente aos alunos em maior vulnerabilidade econômica e social. “A gente sabe que os cursos de licenciatura congregam muitos estudantes de baixa renda. E nem todos conseguem a bolsa de permanência”.

 

ENTREVISTA I Carmen Teresa Gabriel, Coordenadora do Complexo de Formação de Professores

“Licenciaturas não são bacharelados de segunda ordem”

WhatsApp Image 2020 10 16 at 14.41.461Professora Carmen Teresa GabrielCoordenadora do Complexo de Formação de Professores e ex-diretora da Faculdade de Educação da UFRJ, a professora Carmen Teresa Gabriel explica os princípios que norteiam a iniciativa de formar docentes de maneira continuada pela universidade. A tarefa exige um constante movimento de atualização. “A universidade precisa, principalmente, mudar a sua cultura profissional, no sentido de acolher a importância dessa sua função como formadora”, aponta a docente.

JORNAL DA ADUFRJ: Qual a importância do Complexo de Formação de Professores?
Carmen Gabriel: O Complexo traduz o reconhecimento da UFRJ do seu papel como formadora de profissionais da educação básica. Ele mexe com a cultura universitária para que a universidade pública assuma a sua responsabilidade nesse processo, de maneira que a formação de professores seja algo tão importante quanto a de médicos. O Complexo também articula um espaço comum onde todos os sujeitos envolvidos interagem de forma horizontal, plural e integrada. Universidade e Escola pensam e concebem juntas as políticas de formação de professores.

Quais os principais desafios da UFRJ  na formação de novos docentes?
A universidade precisa, principalmente, mudar a sua cultura profissional, no sentido de acolher a importância dessa sua função como formadora. Durante muito tempo, as licenciaturas foram consideradas como um bacharelado de segunda ordem, o que se traduz nos próprios currículos e em toda uma discussão de teoria e prática. Outro desafio é construir formas de superar as fragmentações nas diferentes experiências de formação. O Complexo pressupõe que os problemas não estejam nos níveis do indivíduo, e sim da instituição. O que a gente quer é criar uma operacionalização dessas questões, que há muito tempo já vêm sendo discutidas.

Quais são os princípios do Complexo de Formação de Professores?
O Complexo é norteado por três princípios. Um é o da horizontalidade, que existe entre todos os saberes, sujeitos e territórios. A gente dá tanta importância às ações da cultura universitária, que envolvem pesquisa, extensão e ensino, quanto aos saberes produzidos nas escolas. O segundo é o da pluralidade, pois a gente entende que não existe um modelo único. O Complexo não quer homogeneizar todas as ações. Ele se vê como uma grande rede de formação de professores. E entende essa riqueza da troca de experiências de formação que ocorre entre a UFRJ e as instituições parceiras. E o terceiro ponto é a integração, pois o CFP tem como função articular todas as suas experiências de formação para potencializar ações que já acontecem. É um novo arranjo institucional na UFRJ que traduz a política de formação inicial e continuada dos docentes da Educação Básica.

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