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WhatsApp Image 2020 09 21 at 14.20.16LIGA ACADÊMICA de Neurologia 2018: atividade prática - Foto: DivulgaçãoFormar-se em Medicina é um enorme desafio que começa já no vestibular, sempre bastante concorrido. Mas formar um médico é um trabalho igualmente desafiador, e pode ser ainda mais difícil para um curso tão recente quanto o de Medicina do campus de Macaé da UFRJ, criado há apenas 11 anos. Um quadro de professores deficitário e a falta de infraestrutura para as aulas práticas são os principais obstáculos.
“Faltam vagas e faltam candidatos, mas nosso maior problema é a falta de candidatos”, avaliou o professor Leonardo Cinelli, diretor em exercício do campus. “O salário na Academia para o médico não é atrativo”. A carreira médica tem uma média salarial alta, e isso diminui o interesse de possíveis postulantes às vagas oferecidas. Mas o professor acredita que uma decisão do Consuni pode melhorar o cenário: em dezembro do ano passado, o conselho publicou uma resolução liberando da dedicação exclusiva um terço dos professores que trabalham em regime de 40 horas na Medicina de Macaé. Antes, apenas os professores em regime de 20 horas semanais não tinham dedicação exclusiva.
“A dedicação exclusiva é uma condição que muitos médicos não querem, e às vezes o contrato de 20 horas não compensa para o profissional”, explicou Leonardo. “A quebra da DE é bem-vinda, acho que vamos conseguir mais e melhores candidatos com essa mudança”, falou.
A pró-reitoria de Pessoal (PR-4) está com um edital de concurso aberto que pretende contratar 10 docentes para a Medicina de Macaé. Segundo a coordenadora do curso, professora Laila Ertler, o concurso em andamento é para cobrir quase que exclusivamente cadeiras que estão sem nenhum professor.
As disciplinas de Propedêutica Médica, Clínica Médica e Pediatria estão entre as que mais sofrem as consequências da falta de docentes. Há 48 docentes efetivos exclusivos e mais 11 substitutos.
Na opinião da professora, um quadro de docentes pequeno restringe a experiência de aprendizagem dos alunos. “Temos poucas cadeiras com mais de um professor e algumas sem nenhum. Os alunos deveriam ter várias visões e estilos de ensino para se identificar e aprender”, disse.
O representante do Centro Acadêmico também atribui ao governo federal uma parte das dificuldades de contratação. “O problema de falta de professores é reflexo da desvalorização e desfinanciamento das universidades. Ficamos anos renovando vagas de professores substitutos e isso cronificou o problema. Além do fato de muitos profissionais médicos não verem atrativos na carreira docente, principalmente no interior”, disse Giovanni Vilela.
Enquanto isso, o curso segue movido pelo esforço dos docentes e técnicos. “Fazemos horas a mais de ensino e temos acúmulos de funções administrativas. Além disso, fizemos novas parcerias com um hospital privado local e outros setores públicos, contando com a solidariedade de profissionais da região”, contou a coordenadora. Laila é uma das professoras sobrecarregadas. “Dou aula em três disciplinas e coordeno a área de clínica médica do internato”, afirmou a docente, que também conduz atividades de pesquisa e extensão. “E existem outros professores em situações semelhantes”. Laila ainda acumula as funções administrativas da coordenação do curso. “Sozinha, esta atividade demanda as 20 horas de trabalho do meu vínculo”, relatou.
Outro problema é a falta de um hospital-escola. Na opinião do professor Leonardo Cinelli, um fator que também diminui o interesse dos candidatos à vaga de docência. “Os professores médicos querem um hospital-escola para ensinar”. As atividades práticas do curso, especialmente nos ciclos clínicos e no internato, acontecem em instalações da rede de saúde pública do município de Macaé, graças a um convênio da UFRJ com a prefeitura. “A prefeitura, independente de quem está no governo, sempre foi muito parceira da UFRJ. A relação é, de fato, muito saudável”, defendeu o professor. “Mas esse é um ponto em que ficamos muito frágeis, porque, se por qualquer motivo, o próximo prefeito, que vai ser eleito este ano, falar que não quer mais uma relação com a UFRJ, o convênio pode ser rompido de maneira unilateral. Essa é uma situação muito sensível.”
A coordenadora Laila Ertler reafirma a boa parceria com a prefeitura, e detalha os efeitos da falta do hospital para o curso. “A falta de um hospital universitário impacta na gestão e, consequentemente, no ensino. A falta de ingerência dificulta algumas entradas em determinados setores”, contou. A prefeitura oferece diversas unidades para as atividades práticas, como o Hospital Público Municipal e o Pronto Socorro Municipal, mas não são suficientes. “Os campos práticos têm capacidade reduzida para a nossa demanda. Um ambulatório, por exemplo, consegue receber, idealmente, apenas dois internos”, explicou Laila.
“Sobre hospital universitário, somos um curso que surgiu pensando na integração ensino-serviço, sendo a rede do SUS nosso campo prático. O importante são as pactuações e contratos entre universidade e município, garantindo campo prático e a universidade contribuindo pra comunidade de Macaé”, afirma o estudante Giovanni. O aluno entende que as dificuldades de infraestrutura não são exclusivas do curso: “Mas pra todos os cursos de campi do interior, que sofrem de forma ainda mais intensa os reflexos dos cortes de verbas”.
Todos os esforços até aqui entregam um ótimo resultado. Na sua primeira avaliação feita pelo MEC, o curso ficou com nota 4, a maior possível para um curso recém-criado. “O resultado é muito positivo. Nossos alunos saem e passam em concursos públicos, fazem excelentes residências pelo Brasil, alguns seguem a carreira acadêmica”, avalia o professor Leonardo. “Nossa nota no Enade é muito boa”, afirma o professor.
A coordenadora da Medicina concorda com a avaliação positiva, e ainda vê possibilidades de melhora. Para Laila Ertler, um dos caminhos é a Medicina de Macaé tornar-se uma referência entre as universidades do interior do estado, para atrair profissionais da área médica. “Temos muito a melhorar, mas temos bastante potencial para isso. Macaé é uma cidade aberta e acolhedora, e a gestão executiva do município está sempre à disposição para cooperar”, disse.

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