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WhatsApp Image 2020 09 21 at 14.02.591A taxa de mortalidade pela Covid-19 no município do Rio é a maior do mundo: 149,9 por 100 mil habitantes. Para se ter uma ideia do desastre carioca, a república de San Marino, na Europa, ocupa o segundo lugar do triste ranking com 124,3 mortes por 100 mil habitantes. E o Peru fica em terceiro: 93,71, de acordo com dados do dia 10. “É impressionante o que aconteceu aqui”, afirmou o coordenador do GT Coronavírus da UFRJ, professor Roberto Medronho, durante o Tamo Junto do dia 11. O encontro virtual organizado pela AdUFRJ todas as sextas-feiras teve uma edição especial para discutir a situação epidemiológica da doença.
O médico contou que, logo no início da pandemia, em março, conversou com as autoridades municipais e protocolou que a atenção básica precisaria ser fortalecida. “O prefeito Crivella destruiu a atenção básica. Essa é uma das hipóteses que apontam para nós sermos campeões de mortalidade do mundo”, destacou.
“Precisaríamos ter atenção básica atendendo os pacientes, isolando os casos positivos e identificando precocemente os casos que evoluíram para forma grave, internando imediatamente”, disse. “Isso reduziria muito a letalidade. Não foi o que aconteceu. O que vimos foi esse caos e essa corrupção impressionante no nosso estado e também no município”, declarou.
Medronho informou que o Hospital Universitário passou por uma fase muito crítica. “No HU, era um horror. O paciente morria sendo transportado para o CTI”, lembrou. “Pacientes que chegavam de maca, vivos. Quando estavam na porta da emergência, o doente estava morto já. Então foi um caos total”, afirmou.
 Apesar da atual diminuição dos casos de Covid no hospital, outros casos altamente complexos voltaram descompensados. “A enfermaria não Covid bombou com pacientes muito graves, porque não estavam procurando atendimento e houve uma descompensação do quadro clínico. Agora, estamos vivendo talvez o que seria o pior dos dois mundos”, declarou. Enquanto os doentes sem o vírus estão nas enfermarias e nas emergências, os doentes de Covid-19 começaram a reaparecer no HU.
Ainda no Rio, uma particularidade da pandemia intriga Medronho. “A gente achava que, quando chegasse às favelas, seria um caos. Não foi”, disse. Uma das hipóteses é a possível reação cruzada com quatro coronavírus mais antigos que costumam circular na sociedade. “Naquele ambiente, os quatro já estão ali direto e é possível que a reação (a eles) tenha ajudado”, avaliou.
 
MORTALIDADE X LETALIDADE
WhatsApp Image 2020 09 21 at 14.02.592O professor citou o filósofo e também docente da UFRJ Fernando Santoro para explicar a diferença entre letalidade e mortalidade. “Letalidade é sobre a gravidade da doença. Mortalidade diz sobre o risco de a população morrer daquela doença”, definiu. A letalidade é calculada em óbitos divididos por casos da doença. Já o índice de mortalidade é medido pelos óbitos divididos por toda a população.No total do Brasil, mesmo sem testar tanto, a taxa de letalidade não é muito alta.
 “A nossa é 3,1%, semelhante à dos Estados Unidos, que é 3,2%, e menor do que a Grã-Bretanha (12%) e Itália, com 11%”, esclareceu o professor. “No Sudão, está uma desgraça. Em guerra civil e com 28,9% de letalidade, ou seja, quase um terço dos pacientes de Covid vai a óbito”, lamentou.
Dentro do Brasil, a letalidade no Sudeste é a maior. E a do estado do Rio de Janeiro é maior ainda. Na evolução dos casos até o dia 5 de setembro, no estado fluminense, não houve uma segunda onda. “Nós tivemos o pico naquele final de abril, início de maio. Esse pico foi dramático, porque colapsou a rede hospitalar”, contou Medronho. “Os hospitais de campanha não foram contratados, houve a contratação de recém-formados muitas vezes sem nenhuma habilidade, e isso redundou numa elevada letalidade hospitalar”, lamentou o médico.
Outros estados, especialmente o Amazonas, também vivem uma situação dramática. “Quando a gente vê a incidência de casos sobre toda a população, o risco de adoecer, o Norte e o Centro-Oeste têm incidência maior”, afirmou.
Para Medronho, a elevada taxa de letalidade só não foi maior pela existência do Sistema Único de Saúde, o SUS. “Gratuito e aberto à população. Sem ele, teríamos um número de casos muito maior”, afirmou.
WhatsApp Image 2020 09 21 at 14.02.58Até a reunião do Tamo Junto, havia aproximadamente 28 milhões de casos de Covid-19 confirmados no mundo, mas o número é muito menor que o real em função da subnotificação, explicou o professor. “Vamos chegar rapidamente a um milhão de óbitos, que também está subenumerado”, afirmou — a Organização Mundial da Saúde informou 943 mil mortes pela pandemia, no dia 17.
Os Estados Unidos, o Brasil e a Argentina são os atuais epicentros da doença, mas a Índia aparece com números crescentes. “No nosso país, há uma tendência de queda de casos diários; nos Estados Unidos, também”, disse. “Na Índia, a coisa está explodindo e na Espanha já há uma segunda onda semelhante à primeira”, afirmou.
Na Europa, essa segunda onda está acontecendo em todos os países por conta do verão, no hemisfério norte. “A juventude que ficou confinada, com o verão está vivendo como se não houvesse amanhã, sem medo de ser feliz, aglomerando nas praias, nos ‘pubs’, nos restaurantes, nas festas”, explicou Medronho. “Bem parecido com os nossos jovens aqui e ainda nem chegamos ao verão”.

PANDEMIA
“A gente vai conviver com pandemias durante toda a nossa existência”, acredita Medronho. “São milhões de pessoas que cruzam as fronteiras no mundo inteiro. Isso, obviamente, é uma coisa fantástica, mas sem os devidos cuidados, sem a devida conscientização, nessa forma de exploração da natureza, do capitalismo selvagem e nessa acumulação absurda, é realmente insustentável”, explicou o médico. Em 2020, mesmo com a pandemia, o mundo teve quase cinco milhões de passageiros em tráfego aéreo. “Essa doença tem um perfil: mata preto e pobre. No Brasil, durante muitas semanas eram como quatro aviões caindo por dia e o pessoal na fila para viajar de avião nos aeroportos”, criticou.
Medronho mostrou um estudo que calcula a mobilização da população na rua a partir do uso de celulares. “Essa mobilização hoje está em torno de 60%. É igual à da pré-pandemia”, alertou.
Medronho afirmou que não há chance de vacinação em 2020. “Eu já botei meu calendário muito mais otimista em meados de junho do ano que vem”, contou. Ainda assim, as vacinas para a Covid-19 serão um recorde na Ciência. “Nunca tivemos tão rapidamente um processo de ensaio clínico de vacinas como esse. É recorde internacional”, disse. Antes dessa pandemia, a vacina produzida de forma mais rápida no mundo foi feita para tratar catapora. E demorou cinco anos, lembrou o professor. “Conviveremos com esse vírus, no mínimo, por dois anos. Mesmo quando a gente começar a vacinar, o acesso à vacina é demorado”, concluiu.

BATE-PAPO
Perguntas não faltaram para o convidado do Tamo Junto. O professor Nelson Braga, do Instituto de Física, questionou o médico sobre o isolamento social. “Vocês sempre defenderam essa questão do grande isolamento, talvez para baixar a curva por conta da capacidade hospitalar”, disse. “Agora você falou que o vírus dura dois anos. Ou seja, se a gente resolvesse aqui que todos os brasileiros vão ficar em casa cinco meses, o vírus não acabou?”, questionou. Medronho respondeu ao colega que não há evidência na história de que o isolamento debelou qualquer processo pandêmico de uma doença de transmissão respiratória. “A gente só está querendo que o vírus se dissemine mais lentamente, para os casos graves poderem ser absorvidos pelo sistema de saúde, e não morrer gente na fila da emergência”, afirmou.
 No caso do coronavírus, quanto maior o grau de confinamento, maior a probabilidade de que, quando se libere as pessoas, as que não estão infectadas encontrem com pessoas que estão, e isso gere uma segunda onda, como está ocorrendo na Europa. “Isso é um paradoxo também. Quanto mais eficaz (o isolamento), maior o número, se você tiver uma infecção depois”, afirmou o médico.
Cezar Augusto, professor da Faculdade de Farmácia e Chefe de Serviço da farmácia do Hospital Universitário, perguntou sobre o futuro dos medicamentos usados no tratamento da Covid-19. “Certamente produzimos muita coisa em tempo recorde nesses meses. Gostaria de saber se você vê algum fármaco ou algum candidato a fármaco com potencial de mudar alguma coisa no jogo, nos próximos meses ou até o próximo ano?”.
 Medronho contou que, numa revisão sistemática feita recentemente, foram analisados 3.262 mil artigos publicados na literatura médica sobre todos os tratamentos para a Covid-19. “Hidroxicloroquina, Renezivina, Conavir e Tonavir, corticoide, soroterapia, um monte de medicamentos e nenhum deles mostrou-se eficaz”, disse.
O professor citou relatos de casos fulminantes no Hospital Universitário pelo uso do medicamento Hidroxicloroquina. “A cloroquina pode trazer problemas graves de distúrbios da condução elétrica do coração, e o paciente morre”, contou.
“O vírus é uma coisa muito interessante. Alguns dizem que não é um ser vivo, outros dizem que é”, relatou. “É um material genético encoberto com glicoproteínas, isso que é um vírus. É tão simples que a gente não consegue entender”, afirmou.
 Medronho observou que pouquíssimas doenças virais conhecidas possuem tratamento concreto, objetivo e definitivo.
“Todas essas drogas testadas na fase pré-clínica, in vitro, foram absolutamente fantásticas. Quando vai para o ser humano, é outro departamento”, explicou. Isso se deve à complexidade do corpo humano e à relação do vírus com o hospedeiro. “A gente não sabe o que é que acontece”, afirmou. “Agora, teve caso de reinfecção e há casos que estamos vendo de reativação, quando o coronavírus, não sabemos bem o por quê, se esconde”, disse.  

HU SOLIDÁRIO
 “Eu chamei a Covid de doença da solidão”, contou o médico. “Quem entra para ser internado em qualquer hospital de Covid nunca mais vai ver a cara de ninguém, se morrer. Ninguém”, explicou. Mas uma iniciativa do Hospital Universitário minimizou esta situação.
A filha de Medronho, Renata, que está no último ano do curso de Medicina, participou de um projeto do HU para acompanhamento dos pacientes de Covid-19. “A Renata foi voluntária e trabalhou no CTI da Covid. Ela tomou conta de um funcionário do Instituto de Física, o Marçal”.
Professora do instituto, Thereza Paiva conhece o paciente. “Todo mundo sabe que a Renata acompanhou. Ela que mandava notícias para a gente do IF. Todo mundo superfeliz que ela estava lá e fez companhia para ele”, elogiou.
Medronho contou que Renata via como estava a evolução e ligava para a família para informar. “Ela ficou muito ligada à família do seu Marçal. No dia que ele teve alta, ela foi se despedir dele presencialmente e conhecer a filha e esposa”, lembrou. Para ele, esse projeto feito no Hospital Universitário não existe em nenhum lugar. “Esse cuidado de ligar todo dia, duas vezes por dia. Isso é UFRJ, é raro”, afirmou.

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