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WhatsApp Image 2020 09 14 at 08.25.101Qual é o papel da universidade na construção do futuro? Para a antropóloga Debora Diniz, professora da UnB, a universidade é o “lugar onde se produz a verdade”. A frase foi dita durante o debate “A universidade do futuro: a ciência e o mundo pós-pandemia”, promovido pela UFRJ nas comemorações do seu centenário. Debora exaltou o papel dos cientistas e sua valentia. Foi coerente quando perguntada sobre como a produção de verdades, que às vezes são tratadas como certezas eternas da ciência, pode ser valorizada sem se afastar do conhecimento produzido pelo povo. “A construção de verdade e o uso da categoria não significa transformá-la em dogma”, explicou a antropóloga. “O que fazemos nas universidades são construções de respostas transitórias a perguntas que batem à nossa porta como verdades da vida”.
O debate reuniu também o professor de Física da USP Paulo Artaxo, especialista em mudanças climáticas e Silvio Almeida, professor de direito da Mackenzie. Representando a UFRJ estavam a reitora e o vice-reitor, Denise Pires de Carvalho e Carlos Frederico Leão Rocha. A mesa foi mediada pela coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, Tatiana Roque.
O vice-reitor trouxe para o debate o avanço da automação e como ele vai influenciar a qualidade dos empregos oferecidos para as pessoas. “A automação tem impactos devastadores na vida econômica, com um potencial de destruição de postos de trabalho poucas vezes visto”, afirmou o professor, que apresentou um dado que estima que entre 30% e 40% dos postos de trabalho que existem hoje devem desaparecer graças ao uso de robôs. A outra consequência da automação é a piora na distribuição de renda. E o cenário é mais grave porque os robôs estão começando a realizar tarefas mais qualificadas.
Na avaliação da reitora, Denise Pires, a universidade está no centro da solução para esse cenário distópico. “As pessoas precisam entender o que nós pesquisadores estamos dizendo”, disse Denise, que é professora do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho. “O que resolve esse problema é a informação, a educação e a metodologia científica disseminadas”, disse Denise.
O professor de Física da USP Paulo Artaxo também exaltou a importância da Ciência. “Esse retrocesso civilizatório que passamos hoje vai causar alguns danos, mas vai passar. E a força da pesquisa brasileira vai vencer”. Sem deixar de reconhecer os danos causados pela pandemia, Paulo explicou os graves efeitos provocados pelo aquecimento global que, segundo ele, terão consequências socioeconômicas mais devastadoras e duradouras.
O professor de Direito Silvio Almeida defendeu que a universidade pública tem papel central na procura por soluções para as graves crises política, econômica, jurídica e cultural que o Brasil se encontra. “O centro desse debate é o futuro da universidade, que é o futuro da sociedade”, afirmou Silvio.

Leia abaixo trecho da apresentação da professora Debora Diniz no debate

“Quero começar com meu imenso reconhecimento à magnífica reitora Denise Pires de Carvalho. Tenho um orgulho especial em saudá-la assim, no feminino, professora Denise. O tempo se conta para trás, se imagina para frente, e nessa dos 100 anos nós já somos o futuro de um passado em que mulheres não estariam em sua posição de saber e poder. Eu estendo a minha saudação aos que hoje celebram esse momento juntos, aqui.
Os 100 anos, eu preciso dizer, me angustiaram. Eu tenho metade deles, e sei tão pouco sobre o que antecedeu. Se sou grata ao passado, sou muito responsável, porque tenho o dever de cuidar, como professora, sobre quem nos sucederá nesse lugar de valentia. É disso que eu quero falar.
A universidade é o espaço de produção da palavra valente. É o lugar onde se produz a verdade, e eu peço licença para usar no singular. Nós somos valentes porque produzimos a verdade, e quem diz o que é verdade são as regras da nossa comunidade, isso que chamamos de ciência, de conhecimento acadêmico e literário. Mas quem transforma o mundo não somos nós, mas o povo que vive a vida. O que fazemos na universidade é nos somar às sobrevivências do povo, oferecendo a palavra, reflexão e a dúvida sobre os desafios do nosso tempo.
Nós vivemos melhor do que há 100 anos. Podemos curar doenças que nos matavam, as mulheres podem decidir quantos filhos querem ter, nós conhecemos mais sobre nosso planeta e o universo. Sabemos que a Terra não é plana, que as vacinas previnem doenças, que há fatos históricos – como a escravização ou a ditadura militar de 1964 – que não são opiniões, mas eventos do passado. Algumas desgraças parecem teimar em nos acompanhar nesses 100 anos. Os desconcertos das pandemias é uma delas. As injustiças raciais e de gênero, os efeitos das desigualdades de classe na saúde, no trabalho ou no sonho de quem se quer ser, ou se poderia ser. Não digo que nos estamos piores ou melhores, na vida comum, do que há 100 anos. Penso nos efeitos do sexismo e do racismo. Isso que foi chamado de sociedade, quando me ofereceram o título para hoje. A afirmação verdadeira é outra, e resiste ao relativismo. Somos terrivelmente injustos.
A comparação no tempo não me consola. Preciso agir como alguém que persegue a verdade porque o mundo assim quer. Por que não respeitamos as regras de proteção e saúde pública em uma pandemia? Por que continuamos racistas, sexistas, homofóbicos? Por que perseguimos mulheres e meninas? Por que destruímos terras indígenas? Por que não fomos capazes de acabar com essas injustiças, se aqui é o espaço da produção da palavra verdadeira, da palavra valente, que desafia a ira dos que querem nos governar pelo medo e pela tirania?
A resposta é porque nem todos aceitam a verdade. A palavra valente da verdade encontra seus opositores, em particular aqueles com poder de silenciamento e perseguição. Os covardes temem a verdade, a distorcem. Porque falar a verdade é agitar a dúvida. O covarde que não duvida é o fanático, e o fanático não pode duvidar. Por isso ele desdenha da universidade.
Mas a universidade persiste. Nesses 100 anos não é a primeira vez que precisa mostrar a sua força para produzir a verdade e lutar pelo justo. E não será a última vez, mas será sempre libertadora quando o faz.
Erra quem pensa que um pesquisador e um laboratório definem a sua agenda de pesquisa. O que seria do seu gabinete de trabalho que transforma o mundo. Quem nos agenda é o mundo, é a vida do povo comum, que nos bate à porta. Quanto mais aberta estiver a nossa porta para as necessidades do mundo, mais valente será a universidade para a produção da verdade. E sim, a palavra da universidade para dentro e para fora, para a sua comunidade universitária e para a sociedade, é a palavra valente. Pronunciá-la exige coragem, por isso sempre há risco. Risco de não ser ouvida, de ser silenciada, de ser dito errado.
Mas eu quero dizer que para sermos valentes, primeiro precisamos escutar o mundo. A valentia não está em resistir ao fanático, mas em ser capaz, desde a escuta do mundo, imaginar mundos menos injustos. A coragem de verdade está em sua produção corajosa, está na pronúncia, mesmo sob risco. A controvérsia da palavra verdadeira não pode nos intimidar, muito menos silenciar. Por isso não há heroísmo em quem fala a verdade. Há só uma coragem, partilhada, em todos nós que estamos na universidade para a produção do conhecimento. Nós somos muitos, todos os dias, a fazer isso.
Aprendemos a escutar mais e melhor o mundo nesses 100 anos, e eu quero dar um exemplo. Nesses 100 anos o mundo fez Conceição Evaristo. Essa universidade a titulou como doutora. Essa universidade tem até a ousadia de chamá-la de “ex-aluna ilustre” em suas celebrações de 100 anos. Eu digo a ousadia porque aí está alguém com a coragem da verdade, a quem todas nós, todos nós, somos devedores.
Conceição Evaristo tem a palavra valente da universidade. Ela desafia a ira do racismo. Ela fala de personagens ignoradas pela história, pela literatura, pela etnografia. Ela é incômoda. Faz troça do que se imaginava descrever como literatura canônica. Ela nos oferece imaginação.
Há quem não goste de nós. Os desafetos individuais devem ser ignorados. O nós que importa é sobre a universidade como espaço de criação. Nesses 100 anos, a história de covardia contra as universidades pode ser contada na longa duração, ou pelo instante. Esse é o momento em que a palavra verdadeira da universidade é incômoda para alguns. Há quem queira nos intimidar pelo ódio, impedir que nossas reitoras sejam reitoras, cercear a construção da palavra verdadeira. Mas a universidade não se intimida facilmente. Por isso eu repito, aqui é o espaço da palavra valente da verdade. Ela é incômoda, porque essa é nossa ética da coragem e da responsabilidade. E que assim seja por todo o futuro que espera a UFRJ”.

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