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08WEB menor1138Acaba de completar 90 anos um dos nomes mais queridos da UFRJ: Edwaldo Machado Cafezeiro. O “Café”, para os íntimos. Emérito, ex-diretor da Letras, estudioso da língua portuguesa e do teatro e um dos idealizadores da AdUFRJ. Com enorme capacidade de aglutinar pessoas, participou ativamente da redemocratização da universidade. Com generosidade e bom humor, emociona todos com quem convive até hoje.
Prova disso é que, mesmo em uma celebração virtual no último fim de semana, cada um em sua casa, conforme as orientações das autoridades de Saúde, o “Café” voltou a dar sabor à vida das pessoas. “O momento mais descontraído dessa pandemia, para mim, foi a comemoração do aniversário do Cafezeiro”, afirma a ouvidora-geral da UFRJ, Cristina Riche.  
A professora conheceu Cafezeiro, nos corredores da antiga Faculdade de Letras, com sede na avenida Chile. Ali, ainda estudante, Cristina começou a acompanhar o professor que era considerado um excelente mestre e comparecia às assembleias comunitárias para discutir os tempos difíceis que o país atravessava, no fim dos anos 70 e início dos 80.
A amizade se estreitou quando se tornou docente, anos depois. A admiração veio junto. “A atuação do Café não está limitada à Faculdade de Letras. Ela se traduz na contribuição para uma universidade inclusiva, a universidade que pretende reconciliar o homem com a sua circunstância. Ou seja, com a natureza, com o meio ambiente, com os outros homens. Ele é um dos artífices da universidade aberta , a universidade de todos e para todos ”, diz.
A busca pela ampliação do acesso à universidade tem relação com a própria biografia, no ponto de vista de Marília Cafezeiro, primogênita do primeiro casamento de Cafezeiro. “Meu pai era de uma família muito pobre do interior da Bahia. Teve que trabalhar desde muito jovem para estudar”, conta.
A dedicação à universidade é integral. No momento, o mestre trabalha em um livro sobre lingüística. Não há espaço para passatempos. Mas o mestre tinha uma mania, abandonada por questões de saúde. “Ele costumava ficar andando de um lado pra outro e fumando charuto, enquanto refletia sobre alguma coisa. Na antiga faculdade de Letras, para encontrar meu pai, numa época que não tinha celular, as pessoas iam pelo faro”, brinca Marília.
Naquele endereço da avenida Chile, o professor Clécio Quesado viveu uma experiência inusitada com o nonagenário mestre. “O Cafezeiro foi meu aluno em 1970. Vinha assistir às minhas aulas de paletó e gravata. Eu tinha 25 anos e ele, 40. À época, eu dava aulas de calça boca de sino, cabelo black power, bolsa a tiracolo, sandália”. Tempos depois, já amigos, ao indagar por que ele se vestia assim no curso, veio o esclarecimento: Cafezeiro precisava se apresentar à Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS), toda semana, para responder a processos políticos que acumulava em função da militância no Partido Comunista Brasileiro. “E eu achava que ele era um espião da DOPS na faculdade”, lembra.  
Em 1986, Café assumiu a direção da faculdade. O professor João Baptista Vargens, que fez parte da equipe, usa a palavra “generosidade” para resumir a personalidade de Cafezeiro.  “Nós abrimos as portas da faculdade para grupos afrobrasileiros. Abrigamos pessoas que foram cassadas pela ditadura, como Joel Rufino e Aderbal Freire Filho”, recorda João. “Montamos, em convênio com a prefeitura do Rio, lonas culturais. Nos finais de semana, o pessoal da Maré vinha dançar dentro da universidade”.
A gestão, com uma inegável preocupação social, também brilhou no meio acadêmico. Em 1987, a universidade sediou o congresso internacional “Discurso e Ideologia”, com grandes nomes do mundo das letras, do Brasil e do exterior.
As atividades se espalharam por todo o campus e mobilizaram três mil pessoas.
“A Folha de S. Paulo disse que o Rio voltou para o foco da cultura. E Cafezeiro foi o ‘cabeça’ desse projeto enorme”, relata a professora Christina Motta, que presidiu o evento. “Por causa da posição política e da generosidade pessoal dele, Cafezeiro incluiu todos os departamentos da faculdade em igualdade de condições. Independente do número de docentes, todos tiveram o mesmo espaço no congresso”, conta.
Por pouco, a generosa atuação política de Cafezeiro não chegou à administração central da UFRJ. O mestre candidatou-se a vice-reitor na eleição de 1994. Nelson Souza e Silva, da Faculdade de Medicina, foi o candidato a reitor. “Era um projeto novo de transformação da universidade, para interagir com a sociedade”, diz Nelson.  A chapa saiu na frente no primeiro turno, mas acabou superada ao final do pleito.
A parceria com Café continuou no curso de pós-graduação da Cardiologia. “A idéia do curso é pôr os alunos em contato com outras racionalidades, de várias áreas. O Cafezeiro fala muito sobre o discurso. E por que isso é importante para nós? Porque médico e paciente interagem pela fala e esse entendimento facilita as decisões clínicas.
Por isso, trago professores da área de Letras”, explica o docente da Medicina.
Nelson conta que foi convencido por Cafezeiro a repensar a avaliação que fazia dos alunos. Em vez de atribuir uma nota pela cobrança de um conteúdo, passou a verificar a performance do estudante na universidade, como ele se comporta com os colegas, o que traz de novo para as aulas. “Do ponto de vista pedagógico, o Café é um revolucionário”, observa.  

ATENÇÃO AO ALUNO
O professor Godofredo de Oliveira Neto reforça o cuidado que Cafezeiro defende na relação com o alunado. “Essa concepção de o professor estar a serviço dos alunos é muito importante. Estamos ali graças a eles e por eles. Parece óbvio, mas não é para muitos colegas”, argumenta. Godofredo também valoriza a contribuição de Cafezeiro para a análise da variação lingüística do Português no Brasil. “É um dos grandes estudiosos do tema”.
Além do estudo da variante lingüística brasileira, Cafezeiro domina como poucos a análise da dramaturgia em língua portuguesa. E um fruto dessa linha de pesquisa vai marcar presença nas comemorações do centenário da UFRJ. A professora Carmem Gadelha, casada com ele desde 1988, informa que o livro que escreveram juntos — História do Teatro Brasileiro, de 1996 — será reeditado, online, como parte das festividades da universidade.
De Cafezeiro partiu a semente da criação do curso de Direção Teatral, que funciona na Escola de Comunicação desde 1994. “Ele sempre falava que a UFRJ não podia deixar de ter uma participação na vida teatral do Rio”, diz Carmem. “Aprendi muito com o Café, embora nunca tenha sido aluna dele. Além da formação extraordinária, ele tem uma generosidade intelectual notável. É uma parceria muito prazerosa”.
O intelectual Cafezeiro nunca separou o conhecimento da prática. Quando ocorreu a Revolução Cubana, o jovem Café não pensou duas vezes: partiu para o país caribenho e participou do programa de alfabetização. “Ele me deu de presente uma bandeira com o dístico ‘território livre de analfabetismo’, que guardou por muitos anos. É uma vida rica de experiências, de muitas lutas”.
Outra paixão do professor é a associação docente. “O Café foi um militante muito fervoroso da AdUFRJ”. A professora vai além. “O Café é não só um dos fundadores da Adufrj, mas certamente uma das primeiras pessoas que definiram a idéia de que os professores precisavam ter um organismo representativo”, explica.  A irreverência, outra característica do mestre, também acompanhou esta história. “Houve uma manifestação no Centro em que ele foi coberto de adesivos, enquanto fumava seu charuto, distribuindo panfletos de uma greve”
Atual presidente da AdUFRJ, a professora Eleonora Ziller derrama elogios ao antigo mestre. “Fui aluna dele na Letras, ainda na avenida Chile em 1983. As aulas eram maravilhosas. De um grande estudioso da história da língua portuguesa”, disse. Outros ensinamentos foram compartilhados fora das salas da faculdade: “Ele é um ícone da esquerda na UFRJ. E sempre foi muito generoso, politicamente e academicamente”, afirmou. “Tinha muita tolerância às opiniões diferentes. Aprendi muito com ele e com Samira (Mesquita – ex-decana do Centro de Letras e Artes)”, completou.  
08aWEB menor1138Cercado de carinho por todos os lados, o mestre só tem a agradecer. “Eu me sinto feliz. Sempre me senti”. Questionado se havia algum feito do qual mais se orgulhava nesta longa trajetória política e acadêmica, Café rejeita qualquer personalismo. “Os amigos todos me ajudaram”, conclui.

DEPOIMENTOS

Com o Café comunguei e aprendi sobretudo um conjunto de contumaz persistência e sóbrio humor baiano. Isso aliado à generosidade do mais cristão comunista que já conheci. Em qualquer situação adversa, sempre insistia que tudo iria dar certo e dizia para irmos em frente. Também foi sempre pródigo em se desdobrar no apoio e incentivo a qualquer causa que fosse em prol do crescimento individual e do bem coletivo dentro do seu pleno ideal de liberdade e de democracia. Além de um exemplo de vida, Cafezeiro é, na nossa Universidade, quase uma lenda viva.

Clécio Quesado (Letras/UFRJ)

No próximo ano, 2021, completarei 50 anos no quadro social da UFRJ, como estudante e aluno. Durante esse relativamente longo período, conheci pessoas muito importantes que muito contribuíram para minha formação.  Foram tantas que não consigo enumerá-las.  Entretanto, Edwaldo Machado Cafezeiro, o nosso Café, vem sendo uma figura singular.  Ele me ensinou que o rigor à ciência, o zelo pela administração, o compromisso com o ensino público e de qualidade, a flexibilidade na sala de aula e os sólidos princípios políticos são o único caminho para a tentativa de formarmos pessoas íntegras, capazes de transformar e de tornar a sociedade mais justa. Fiquei muito honrado e feliz por ter sido o escolhido para, na solenidade de sua Emerência, proferir o discurso de saudação. Procuro uma só palavra para traduzir a multiplicidade que é o Café... Encontro-a: GENEROSIDADE.

João Baptista Vargens (Letras/UFRJ)

Conversa do Café, em seu gabinete, com um aluno preconceituoso em todos os quadrantes que gostava de se impor á força nas salas e nos corredores da Letras. O aluno saiu cabisbaixo e mudou completamente o seu comportamento. ( texto que rabisquei, à época, quando trabalhei durante três anos com o Cafezeiro na direção da Faculdade de Letras. Transpus os rabiscos depois para um dos meus romances, com a liberdade poética da ficção ).

Esta Faculdade de Letras  não é lugar para exercer a sua individualidade à custa dos outros. É uma instituição  onde se aprende a ser cidadão, o que significa, justamente, levar em consideração os outros, sempre. É  por aí o caminho para um Brasil mais justo e mais democrático.  A fraternidade e o desejo de conhecimento do mundo dos outros que existem dentro de cada um de nós têm que ser realçados, e não sufocados. Para isso  a escola, para isso a Faculdade de Letras, no nosso caso. Para isso estudar Literatura, Graciliano, Rosa, Machado, Vianinha, Camões,  estudar variação na Língua Portuguesa, Línguas e Literaturas estrangeiras, Letras Clássicas entre outras áreas da nossa Unidade Acadêmica. Sei que você, como aluno, me compreende e conto com a sua ajuda. O saber deve auxiliar na emancipação  e na melhoria da vida da gente como um todo e não servir de instrumento para a dominação de uns sobre os outros. O conhecimento que a Universidade em geral e a Faculdade de Letras em particular  produzem  têm um raio de ação universal e exerce um papel social. A Faculdade de Letras e a UFRJ  tem desde a sua fundação um compromisso social.  O conhecimento é libertação. Libertação da fome, da exclusão, do sofrimento, da injustiça social.  Você como aluno é o receptor e o emissor principal de tudo o que se ensina, pensa e produz aqui.  Conto com você.

Godofredo de Oliveira Neto (Letras/UFRJ)

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